Especialistas analisam investimento em rodovias e abandono das ferrovias em MG: ‘Erro histórico’

 A recente greve dos caminhoneiros e o consequente desabastecimento causado pela paralisação dos serviços trouxeram à tona uma realidade de quase todas as regiões brasileiras: a dependência das rodovias. Especialistas ouvidos pelo G1 Sul de Minas são unânimes em afirmar que a falta de investimento em outros meios de transporte, como as ferrovias, custa muito caro à população atualmente.

Segundo o historiador Alisson Eugênio, professor da Universidade Federal de Alfenas (Unifal), antes da construção das rodovias, as estradas de ferro estavam sendo desenvolvidas principalmente para escoar o café do interior para o litoral. Tudo começou a mudar na metade do século XX, quando, principalmente no Governo JK, as rodovias foram escolhidas como símbolo do progresso e as ferrovias foram deixadas de lado.

“O custo histórico do investimento maciço e praticamente exclusivo nas rodovias foi a morte, a estagnação praticamente das ferrovias, que tinham uma função importantíssima não só de escoamento de mercadorias, não só do café, mas de pessoas. As rodovias são necessárias, são importantes, só que o Brasil cometeu um erro histórico gigantesco, de abrir mão das ferrovias para investir totalmente nas rodovias. O correto seria investir nas rodovias e manter o investimento e expansão das ferrovias. Estaríamos bem melhor hoje se esse erro histórico do passado não tivesse sido cometido”, diz o professor.

Segundo dados da União Internacional de Vias Ferroviárias, o Brasil possui hoje 29,8 mil Km de malha ferroviária, mais do que países como França, México e Itália. No entanto, esse número representa apenas 10% da malha ferroviária dos Estados Unidos, país com o maior investimento em ferrovias no mundo.

Para o professor de geografia do campus de Poços de Caldas do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Sul de Minas Gerais (IF Sul de Minas), Alexandre Carvalho, além de deixar as ferrovias de lado, o país não investiu adequadamente em suas rodovias.

“Se nós formos fazer um histórico do processo de circulação regional de 100 anos atrás, boa parte do fluxo entre os lugares eram constituídos por ferrovias. Esses fluxos levavam pessoas, levavam mercadorias e interligavam cidades, regiões. Por um equívoco, por um grande erro, o Brasil passou a priorizar demais rodovias em detrimento de ferrovias. Mas sem necessariamente ter boas rodovias. Aí entra um problema severo”, explica.

Ainda de acordo com o professor, mesmo com a mudança no foco de investimentos, a questão não foi resolvida. Com isso, muitas vezes regiões de ligação entre polos econômicos ou sociais ainda sofrem com as más condições do asfalto.

Para o professor de economia Renato Silvério Campos, da Universidade Federal de Lavras (Ufla), um novo investimento em ferrovias no Brasil dependeria da vontade do Estado, por meio de concessões à iniciativa privada. Sem isso, sem uma política específica para o setor, a reativação das linhas férreas em alternativa às rodovias é improvável.

“Na minha opinião, eu não tenho dúvidas de que as ferrovias gerariam um benefício muito grande para o país. Diminuiria sobremaneira o custo de se transportar principalmente grãos. Nós temos uma dificuldade de se fazer logística de grãos tanto para a exportação quanto para o consumo interno dentro do nosso país e a ferrovia poderia diminuir bastante esse problema”, disse o professor da Ufla.

Asfaltar

Durante esta semana, o G1 Sul de Minas publicou reportagens com abordagens diversas sobre o asfalto sul-mineiro como um indicativo de desenvolvimento, mas também com os impactos e os reflexos que a presença ou a ausência dele podem causar.

G1, 15/06/2018

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