Maquinistas de trens de carga mantêm o trabalho

O maquinista de trem de carga Paulo Ricardo Carvalho Delgado, de 32 anos, faz cerca de 20 viagens por mês (de 6 a 7 horas cada) entre Bom Jardim de Minas, em Minas Gerais, e Itaguaí, na Baixada Fluminense. A carga transportada é a mais variada possível, podendo ser minério de ferro, materiais de higiene, de limpeza e alimentos. Com o avanço do coronavírus, o ofício que Paulo Ricardo exerce há 11 anos ficou mais solitário. Antes, ele tinha contato direto com outros funcionários da empresa, a MRS Logística, que administra uma malha ferroviária de 1.643km nos estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo.

Diversas medidas foram tomadas para proteger os trabalhadores, que não podem parar, como fornecimento de kits de higiene, procedimentos mais automatizados, uso de carro particular para transportá-los e a suspensão da monitoria, na qual o maquinista experiente ensina os novatos.

— Agora viajo sozinho. Recebemos o kit, máscaras e a locomotiva está sendo higienizada para matar o vírus. Eu me sinto tranquilo para trabalhar e fazer minhas atividades rotineiras na folga. Mas fica a preocupação porque isso não tem prazo para acabar. Meu serviço é essencial para alguns setores, somos linha de frente e numa hora dessas a gente se sente mais importante porque tem que levar o que é preciso para indústrias e mercados — diz Paulo Ricardo.

De acordo com a Associação Nacional dos Transportadores Ferroviários (ANTF), que reúne as seis maiores transportadoras de cargas do país, há 5.219 maquinistas no Brasil, personagens do capítulo de hoje da série “Os Essenciais”, em que o EXTRA mostra os desafios enfrentados por quem tem que trabalhar na pandemia.

Pai de duas meninas, de 8 e 12 anos, Paulo Ricardo tira o uniforme antes de entrar em casa para reduzir o risco de contaminar as filhas e a mulher Karina, de 26 anos:

— Tenho a facilidade de acessar a área de serviço antes de entrar, então tiro o uniforme e lavo para depois ter contato com a minha família.

Saudade da família

Nas viagens entre Paranapiacaba e Jundiaí (SP), o maquinista Frederico Rodrigo Duarte, de 41, sabe que não pode se descuidar. Enquanto mantém a operação do trem de carga na pandemia, se preocupa com os parentes.

Ele conta com a ajuda da mulher, Priscila, de 40 anos, que está desempregada e dá o suporte necessário aos idosos da família:

— Temos que manter o foco no serviço. Torço para que tudo isso acabe logo. Tenho pai e mãe idosos em casa e familiares que saem para trabalhar. E tem a questão financeira, pois vai ficar difícil para minha esposa arrumar emprego.

Cuidado com os funcionários

A MRS Logística está atualmente com 1.500 dos cerca de 5.600 funcionários em sistema de home office e disponibilizou 5 mil litros de álcool em gel para ajudar na higiene adequada dos empregados que estão indo trabalhar normalmente.

— Apesar de dificuldades pontuais, temos conseguido contornar sempre e seguimos operando o transporte ferroviário de cargas, que é tão importante para o nosso país — assinala Guilherme Mello, presidente da empresa.

Ele acrescenta que já foi destinado aproximadamente R$ 1,5 milhão para a compra e a distribuição de alimentos e produtos de higiene para pessoas em situação de maior vulnerabilidade.

Contêineres carregam de tudo um pouco

Nos últimos anos, as ferrovias de cargas tiveram uma diversificação em relação aos produtos transportados, com destaque para os industrializados, chamados de carga geral. Segundo a ANTF, houve um aumento do transporte de insumos em contêineres, que podem acondicionar desde cargas mais delicadas, como ovos e líquidos, até motocicletas inteiras.

Entre 1997 e 2018, esse tipo de transporte cresceu mais do que 14.217%, ou 142 vezes. Subiu de 13.459 TEU (unidade de contêiner, do inglês Twenty Feet Equivalent Unit), em 1997, para 492.131 TEU no ano passado, com uma média anual de 26,6%.

Para a associação, é uma mudança de paradigma dentro do setor ferroviário que continua forte no transporte de commodities minerais e agrícolas, essenciais para a economia brasileira, especialmente agora durante a pandemia, e levando para o exterior ou trazendo cargas importadas para o país.

Fonte: Jornal Extra, 23/04/2020

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